quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Por dentro da Lapa

Diriam, os falsos poetas, que o mundo não pode conter um povo trabalhador e dedicado no momento crucial em que se colocam, de corpo e alma, para fora de seus respectivos locais de trabaho evocando forças superiores tais como livros negros sem serventia, ou quem sabe até mesmo coisas das quais não podemos falar em voz alta pois ofende a fé alheia e não praticada. Enfim, deixemos de lado as questões religiosas pois o assunto já gerou muita guerra.
Pusemo-nos, e me orgulho pouco disso, a bater as esquinas em busca de um algo mais que coroasse a razão de estarmos ali, o motivo básico pelo qual Deus Pai nos dera a oportunidade de tomar posse e fazer de nossas vidas o que bem entendêssemos, tanto nos dias de semana, quanto nos seus fins, quiçá até mesmo nas vésperas de feriados, por quê não?
Deslocamo-nos. E entono o plural pois sei que a vida singular é triste demais, sei que a eternidade nunca há de se dar nos momentos em que os fatos se desenrolarem; e o filhos escutando,
atentos, toda a história daqui a alguns anos, possuíremos, então, por perto uma testemunha que possa comprovar e ratificar tudo que está sendo dito, ainda que uma ou outra verdade seja sobreposta a todo o resto...
Quiseram derramar um desses líquidos amarelos maravilhosos dentro de um copo rechonchudo conhecido, naquela vizinhança, como caldereta. O caldeirão do corpo, esse que mais ferve em noites quentes, já estava por entrar em ebulição após sermos apresentados ao merengue mais arretado dos arcos, com sua maldita Tequila extraída dos confins do México, de onde jamais deveria sair, senão para adentrar em bocas sedentas como as nossas naquele instante.
Que seja, então... se queres nos servir essa gelada cevada em copos que não lembram nossos corpos bem torneados, recordaremos então do que sempre disseram nossas respectivas mães, de não relutarmos em aceitar aquilo que nos seja dado; tomamos posse, porra, somos inteligentes e bem educados. Bebemos.
Mas beber não é tarefa fácil para os jovens desse nosso tempo.
Quiseram os senhores da lei, autores de uma de nossas falhas constituições, que os menores de idade, ainda que possuintes de inúmeros, incontáveis fios alvos de brancura na cabeça, não pudessem adentrar em recintos incorporados dessa malandragem vadia, característica da boemia do lugar. Seguranças não se entendem, gerentes não são comprados, a verdade nunca é aceita... burlamos as regras e colocamos nossa melhor adolescente, chefe de setores, acadêmica convicta, postulante a pós graduações, mestrados, doutorados e afins para dentro, para seu lugar, seu banco de madeira dedicado a acomodar fartos glúteos durante o tempo que fosse necessário e houvesse sede.
Sede insaciável, diga-se de passagem... como bebem, esses que me cercam...
Partidos altos, pessoas mal vestidas, cartolas distribuídas em cabeças que não nasceram para serem cobertas, copos ao chão, danças avulsas e pares que pediam para se formar, ciúmes exagerados que não conseguem ser disfarçados (e comprovam-se agora), pagodes românticos que derrubam lágrimas de saudade de um tempo que já se fora, sambas-enredo que derrubam as mesmas lágrimas mas que não se misturam pois as vertentes são diferentes, garçons barbudos em demasia relembrando personagens das histórias em quadrinhos, luzes infinitas provando para os mais descrentes que a noite se completava ao dia e dizer se era cedo ou tarde poderia ser apenas questão de relatividade.

Por excesso de copos quebrados, fomos enxotados para fora do lugar... tolos, não sabiam, eles, que a rua atrai muito mais a aventura do que um mero bar fechado, cercado de grades e limites a nos censurar em nossa rebeldia jovem... pelo menos a minha, né...
Quis o som alto, quis o barulho ensurdecedor das batidas que ferem sem dó nossos ouvidos até que sejamos obrigados a aceitá-las enquanto nos mexemos até o chão, voltamos ao topo, quebramos para a esquerda, nos deixamos levar para frente, vez ou outra caímos para trás e assim em diante enquanto o ritmo frenético daquele homem estranho atrás das velhas picapes continuasse comandando nossos corpos ao som do funk nervoso da cidade maravilhosa.
Não me culpem.
Culpem o solícito rapaz da barraca das cervejas que nos indicara o caminho da felicidade do fim de noite, ainda que chegue ao meu conhecimento fatos diferentes, bem diferentes dessa felicidade que disserto.
Por ter julgado escuro em demasia o local em que nos encontrávamos, pude analisar muito pouco o recinto em questão; justamente por esse motivo, e uns outros de força maior e respeitadora, passo por cima dos fatos desenrolados ali, e nos jogamos outra vez às ruas sujas e interessantes da Lapa para que pudéssemos fazer o caminho de volta, seguindo o rastro de enzimático deixado na ida...
Pré conceituam muito mal os transeuntes que transitam nas altas horas da madrugada, e me aproveitando desse fato, pedi dinheiro... não que fosse uma necessidade de querer botar à prova a dignidade e ética de chefias e afins; não que eu estivesse numa má colocação financeira e fosse obrigado a me sujeitar a tal papel para arcar com as dívidas pessoais; é que "eu sempre fui assim, um boêmio, um sonhador" desejoso e destinado à maravilhosa profissão de cafetão... E cafetão de profissionais do sexo gringas, ou pelo menos que saibam gozar em inglês.
Explorei Ivan, o Terrível...
"Veja lá companheiro, tu vieste dos confins do continente mãe, Deus Pai não te felicitou com tanta beleza, mas vejo com meus olhos financeiros que seu bolso vomita possibilidades, e digo a ti que o homem das possibilidades é este que vos fala. A puta é cara, mas vale o esforço; tu tem dinheiro??"
Esse meu excesso de sinceridade faz transparecer minhas mentiras e fui logo desmascarado pelo africano tarado...
Fim de noite, fim de plantão.
Porém, saldos positivos devem ser levados em conta, afinal não é todo dia que temos aulas de Kuduro nas esquinas movimentadas do bairro mais boêmio do Rio...

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